Dor crônica avança no Brasil e maioria desconhece cobertura de acupuntura pelos convênios

Foto: Freepik
Maria das Graças, 54 anos, moradora de Itabuna, no sul da Bahia, conviveu com dores na coluna por quase uma década antes de descobrir que o plano de saúde cobria sessões de acupuntura. “Tomava anti-inflamatório quase todo dia. Quando minha filha me mostrou que o convênio pagava a sessão, fiquei sem entender por que ninguém tinha me avisado antes”, conta.
A história se repete em consultórios de todo o país. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, realizada pelo IBGE em parceria com o Ministério da Saúde, cerca de 21,6% dos adultos brasileiros relataram ter dor crônica na coluna.
Apesar do número expressivo, uma parcela pequena desses pacientes sabe que a acupuntura consta no Rol de Procedimentos da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e que os convênios médicos com cobertura ambulatorial são obrigados a custear o tratamento.
A desinformação não é apenas do paciente. Muitos profissionais de saúde ainda deixam de indicar a prática como complemento terapêutico, mesmo quando os estudos apontam benefícios consistentes.
E o resultado é uma população que depende de medicamentos para aliviar sintomas que poderiam ser tratados por outros caminhos.
O tamanho do problema: dor crônica como questão de saúde pública
Os dados da PNS 2019 revelam que as doenças de coluna ocupam o segundo lugar entre as condições crônicas mais prevalentes no Brasil, atrás apenas da hipertensão arterial. A lombalgia, especificamente, afetou 20,6% da população adulta entrevistada pelo IBGE naquele levantamento. Entre as mulheres, a prevalência é ainda maior.
Para além dos números, há um custo humano que não aparece nas estatísticas. Quem convive com dor crônica tem limitações para trabalhar, para cuidar da casa, para brincar com os filhos.
Dados da Organização Mundial da Saúde projetam que a lombalgia afetou 619 milhões de pessoas em 2020 no mundo, com estimativa de 843 milhões até 2050. No Brasil, estima-se que entre 70% e 85% da população terá pelo menos um episódio de dor nas costas ao longo da vida.
O ponto que preocupa médicos e pesquisadores é que boa parte desses pacientes recorre ao uso prolongado de anti-inflamatórios e analgésicos, sem acompanhamento adequado e sem considerar terapias complementares com menos efeitos colaterais. A acupuntura é uma dessas alternativas, e tem respaldo científico crescente para ser usada como parte do tratamento.
O que a ciência diz sobre a acupuntura
A OMS reconhece a acupuntura como tratamento eficaz para mais de 40 condições de saúde. O documento “Acupuncture: Review and Analysis of Reports on Controlled Clinical Trials”, publicado após 25 anos de pesquisas coordenadas pela organização, analisou a eficácia da prática em 147 doenças, sintomas e condições clínicas.
Segundo relatório global da OMS publicado em 2019, 113 países utilizam a acupuntura, o que faz dela o recurso terapêutico da Medicina Tradicional, Complementar e Integrativa mais realizado no planeta. No Brasil, a prática integra a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares do SUS desde 2006.
Uma revisão do Departamento de Serviços Humanos e da Saúde dos Estados Unidos, publicada em 2020 e que analisou 183 ensaios clínicos, concluiu que a acupuntura foi a terapia não farmacológica mais eficaz para condições de dor aguda. Em 38 dos estudos avaliados, o tratamento foi associado a uma redução moderada da dor lombar e melhora da função em duas a quatro semanas.
Outro trabalho, publicado no periódico JAMA Network Open, conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo e da Universidade do Sul de Santa Catarina, mostrou que a acupuntura auricular recuperou quase 60% dos pacientes com depressão moderada, taxa semelhante à de medicamentos antidepressivos convencionais, com a vantagem de não apresentar efeitos adversos graves.
Não se trata, portanto, de uma prática sem embasamento. É o oposto: a cada ano, mais evidências reforçam o papel da acupuntura como tratamento complementar seguro e eficaz, especialmente para dores musculoesqueléticas, ansiedade, insônia e distúrbios gastrointestinais.
A acupuntura no SUS e na rede privada: crescimento e gargalos
No sistema público, a procura por práticas integrativas tem aumentado de forma consistente. Em 2023, conforme dados do Ministério da Saúde, 7,1 milhões de brasileiros foram atendidos em sessões de práticas integrativas e complementares oferecidas pelo SUS, em 83% dos municípios do país.
Em 2024, o número de procedimentos registrados ultrapassou 8,7 milhões, e em 2025 chegou a mais de 10 milhões, um crescimento de 14,6% em relação ao ano anterior.
Na rede privada, o cenário é diferente. A acupuntura consta no Rol de Procedimentos da ANS, o que obriga convênios com cobertura ambulatorial a custearem as sessões quando indicadas por profissional habilitado. A agência não estabelece um limite de sessões. O número é definido pela necessidade clínica do paciente e pela prescrição médica.
Mesmo com essa garantia legal, muitos beneficiários de planos de saúde desconhecem o direito. E quando pedem a autorização, não é raro enfrentarem burocracia ou negativas. Dados da ANS mostram que o setor de planos de saúde fechou 2024 com mais de 52 milhões de beneficiários, um número recorde.
Se 21% desses beneficiários convivem com dor crônica na coluna, como indica o IBGE, há potencialmente mais de 10 milhões de pessoas que poderiam se beneficiar da acupuntura pelo convênio, mas não o fazem por falta de informação.
Como saber se o convênio cobre e o que fazer em caso de negativa
O primeiro passo é verificar o tipo de plano contratado. Convênios com segmentação ambulatorial ou de referência são obrigados a cobrir sessões de acupuntura, desde que haja indicação de um profissional habilitado. Planos exclusivamente hospitalares podem não ter essa cobertura, embora alguns ofereçam o benefício como diferencial.
Na prática, o paciente precisa de uma prescrição médica que indique a necessidade do tratamento. Com esse documento, a operadora deve autorizar as sessões. Caso haja recusa, a recomendação é solicitar a negativa por escrito e registrar uma reclamação junto à ANS.
Para quem está em busca de uma clínica de acupuntura que aceita convênio, a orientação é consultar a rede credenciada do plano ou entrar em contato com a operadora para verificar quais profissionais e estabelecimentos estão disponíveis na sua região.
Há clínicas especializadas que trabalham com equipes multidisciplinares, integrando a acupuntura ao tratamento ortopédico e de reabilitação, o que tende a ampliar os resultados.
A regulamentação avança no Brasil
Em janeiro de 2026, o governo federal sancionou a Lei nº 15.345, que regulamenta o exercício profissional da acupuntura no Brasil. A legislação estabelece critérios de formação e qualificação obrigatória para quem pratica a técnica, algo que até então era regulado de forma fragmentada por conselhos de classe.
A nova lei representa um avanço na segurança do paciente. Com regras claras sobre quem pode exercer a prática, fica mais fácil identificar profissionais qualificados e evitar tratamentos realizados por pessoas sem preparo técnico adequado.
Para o paciente que usa o convênio, a regulamentação também facilita a exigência de cobertura, já que a existência de uma legislação específica reforça o caráter legítimo e reconhecido do procedimento.
O que muda na vida do paciente
“A diferença entre conviver com dor crônica medicada e ter acesso a um tratamento complementar como a acupuntura pode parecer sutil, mas é significativa. Pacientes que associam a prática ao tratamento convencional relatam melhora na qualidade do sono, redução no uso de analgésicos e maior disposição para atividades do dia a dia”, afirmaram especialistas em acupuntura do COE, clínica de ortopedia que oferece acupuntura em Goiânia.
O estudo publicado no JAMA Network Open reforça esse ponto. Entre os pacientes que passaram por acupuntura auricular para depressão, 46% relataram remissão completa dos sintomas ao final do acompanhamento, em contraste com 13% no grupo de controle. São números que indicam benefícios reais, mensuráveis e reproduzíveis.
No Nordeste, onde o acesso a especialistas é historicamente mais limitado e a dependência do SUS é maior, a informação sobre a cobertura obrigatória pelo convênio ganha uma relevância especial.
Para quem paga um plano de saúde, saber que tem direito a sessões de acupuntura pode significar não apenas alívio da dor, mas uma redução concreta nos gastos com medicamentos e uma melhora na rotina.
O caminho para tratar a dor sem depender só do remédio
Segundo ortopedistas mais bem avaliados em Goiânia, a dor crônica não é algo que o paciente precisa aceitar como parte da vida. Existem tratamentos disponíveis, acessíveis e, em muitos casos, já pagos pela mensalidade do convênio. O problema é que a informação não chega com a mesma facilidade que o comprimido.
Profissionais de saúde, operadoras de planos e o próprio paciente têm papéis diferentes nessa equação. O médico precisa informar sobre as alternativas. A operadora precisa cumprir o que a ANS determina. E o paciente precisa saber que tem o direito de perguntar, exigir e buscar o tratamento que melhor se encaixa na sua condição.
A acupuntura não substitui o acompanhamento médico convencional. Não é milagre nem modismo. É uma prática com mais de dois milênios de história, reconhecida pela maior organização de saúde do planeta, incluída no Rol obrigatório da ANS, regulamentada por lei federal e com evidências científicas publicadas em periódicos de referência mundial.
O que falta, em muitos casos, é apenas o primeiro passo: saber que ela existe como opção e que o convênio pode cobrir.


Melhores opções de financiamento para cursar Medicina Veterinária em 2026: compare FIES, Pravaler e bancos
Convites falsos de armazenamento na nuvem se espalham e exigem atenção redobrada dos usuários
Portas automáticas de enrolar reduzem tempo de abertura em áreas de carga e descarga; entenda o impacto logístico
Sustentabilidade Entra no Radar do Marketing Corporativo e Impulsiona Brindes Reutilizáveis
Velocidade acima do limite pode dobrar penalidade em caso de reincidência; entenda
Londrina vive nova fase de valorização imobiliária com condomínios e empreendimentos de alto padrão