DENÚNCIA GRAVÍSSIMA. DA ENGENHARIA DOS R$ 16 MILHÕES À TECNOLOGIA DA LONA PRETA

CRÔNICA & INVESTIGAÇÃO – Por Cincinato
Pirassununga/SP — Outubro de 2026
Há poucos dias, este que vos escreve tentou entender a lógica botânico-administrativa da Bacia do Andrezinho. Questionávamos se a substituição da macrodrenagem pesada pelo plantio de cactos e suculentas seria a nova diretriz da hidráulica municipal. Afinal, diante da fúria das tempestades de outubro, oferecer mandacarus ao Córrego Andrezinho parecia a única explicação poética para o abandono do projeto.
Mas a realidade em Pirassununga, meus caros leitoras e leitores, insiste em superar a sátira.
A tempestade deste fim de semana veio e cobrou a fatura exata que a matemática não perdoa. Enquanto a população assistia estarrecida ao encharcamento da malha urbana, a Defesa Civil foi acionada às pressas para conter um desabamento no entorno do Andrezinho, na Vila Brasil. E qual foi a solução de alta tecnologia aplicada para proteger as famílias, as casas e o solo que cedia sob o peso da água?
Uma lona preta.
Isso mesmo. Um imenso e reluzente plástico preto esticado sobre o barranco desmoronado, acompanhado de um conselho institucional que merece figurar nos anais da engenharia moderna: “Fiquem atentos a sinais como rachaduras na parede e árvores ou postes inclinando. Ao ver a água sair barrenta, corra e ligue 199.”
É o ápice do método preventivo: se o barranco cair, a culpa é da árvore que inclinou sem avisar.
Ocorre que por trás do drama da lona preta existe um número frio e incômodo que não cabe debaixo de plástico nenhum: R$ 16.149.982,10.
Este é o valor do contrato da obra de macrodrenagem da Bacia do Andrezinho. Uma cifra milionária que deveria garantir galerias de grande porte, aduelas celulares retangulares e um exutório funcional, mas que na prática transformou-se em um monumento à inversão da lógica construtiva.
Qualquer estudante do primeiro ano de engenharia aprende que obra de drenagem se começa pelo final — pela jusante, pelo ponto de deságue —, abrindo caminho para a água sair antes de empurrá-la do meio do bairro. Em Pirassununga, fez-se o oposto: cavaram-se valas no meio do bairro Cidade Jardim, assentaram-se tubos circulares acanhados e deixaram a rede sem exutório funcional na Avenida 6 de Agosto.
O resultado? As caixas de inspeção viraram chafarizes de refluxo e o volume esmagador de água da chuva desceu desgovernado até a Vila Brasil, escorrendo pela ponte de madeira do Exército — aquele verdadeiro “rolhão” de pau que represa o ‘riacho’ e faz a água voltar para a casa dos moradores.
A matemática hidráulica da Bacia do Andrezinho é inexorável. A vazão de pico de uma bacia altamente impermeabilizada (que engloba Cidade Jardim, Pavesi e Newton Prado) exige vazão de até 30 metros cúbicos por segundo. Tentar segurar esse oceano urbano com manilhas convencionais e escorar o barranco com lona plástica e bambuzal é como tentar conter uma represa com guarda-chuva aberto.
Exigir o Projeto Executivo Completo e Integrado do SAEP e da Prefeitura não é implicância jornalística. É cumprimento da Lei de Acesso à Informação (Lei nº 12.527/11). A população de Pirassununga precisa saber onde estão os 10 a 12 metros de vão livre da nova ponte de concreto, onde está a calha dimensionada e onde foi parar a bacia de dissipação de energia dentro ou fora do quartel que, com certeza, um projeto bem elaborado teria previsto, para que não aconteça o que ocorreu neste último final de semana! Este projeto, sem prever uma bacia de retenção ou de detenção, não valerá de nada com tantos gastos. E mais: nós chamamos a atenção para a forma espantosa com que as novas linhas e ramais estavam sendo implantados — pasmem! — de cima para baixo, indo totalmente contra a lógica elementar de assentamentos de tubos de drenagem!
Enquanto as respostas técnicas não vêm e o Projeto Executivo permanece oculto sob o manto da omissão, os moradores da Vila Brasil acompanham o boletim meteorológico com o telefone 199 na mão e os olhos cravados no poste da rua. Se o poste entortar, salve-se quem puder.
A engenharia de R$ 16,1 milhões de Pirassununga falhou no cálculo, errou na vazão e naufragou na execução. Mas não se pode negar: na arte de cobrir a incompetência com lona preta e torcer para não chover, a administração municipal é nota dez.
E como disse um leitor de o ‘REPORTER NARESSI’: “O Cincinato tinha razão!”.


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