Drone sobrevoa tubulação de esgoto abandonado pelo SAEP por erro técnico

Desde que recebeu a informação de que as obras do emissário da rede de esgoto na zona leste de Pirassununga — que interligaria o Polo Industrial “Guilherme Muller Filho” à ETE “Laranja Azeda” — teriam sido abandonadas, nossa reportagem vem acompanhando o caso. O problema teria sido causado por uma falha técnica e estrutural: o acúmulo de terra e lama entupiu grande parte da tubulação. Alguns canos chegaram a ser retirados, mas apresentavam danos e não poderão ser reaproveitados.
Neste domingo (16), nossa equipe sobrevoou toda a extensão da obra com um drone para registrar a dimensão dos estragos e dar ao leitor a exata noção do prejuízo. Além disso, consultamos o especialista ‘CINCINATO‘ para obter um parecer técnico sobre a situação.

Veja a avaliação técnica a seguir:
Assunto: Considerações Técnicas sobre a Execução e Retomada do Emissário de Esgoto Sanitário (emissário ou coletor tronco).
1. Contextualização Geral
A implantação do emissário de esgoto sanitário foi concebida para aproveitar as condições topográficas favoráveis da bacia hidrográfica local, permitindo o escoamento do efluente por gravidade ao longo do perfil natural do terreno. No entanto, durante o desenvolvimento dos trabalhos de campo, alterações operacionais em relação à concepção original da diretriz do caminhamento comprometeram a estabilidade e a integridade da infraestrutura implantada. O objetivo era “transportar” o esgoto gerado no Distrito Industrial, eliminando o sistema de recalque (elevatória de esgoto in natura) por via gravitacional.
2. Aspectos Operacionais e Geotécnicos

Do Projeto Original, houve alteração do traçado que resultou na abertura de escavações de grande porte localizadas em fundo de vale (**talvegue). A exposição contínua e prolongada de valas abertas no ponto mais baixo da bacia, somada à ocorrência de intempéries pluviométricas e à ausência de contenções e desvios provisórios de água de chuva, provocou o afluente de expressivo volume de enxurrada e sedimentos para o interior das escavações.
A saturação do solo provocou a perda de capacidade de suporte do leito natural (não foi executado ‘berço’ sob as tubulações nos trechos onde o solo é instável, ou seja, ‘puro barro’, exatamente no trecho onde a profundidade “bateu” os sete metros de profundidade); de assentamento, o solapamento das paredes laterais e a intrusão maciça de lama no interior da tubulação. Tal cenário resultou no assoreamento severo, desalinhamento estrutural e comprometimento irremediável do trecho executado, tornando inviável qualquer tentativa de desobstrução ou aproveitamento da linha existente.
3. Diretrizes para a Solução do Empreendimento

Com o objetivo de sanar definitivamente o problema e garantir a funcionalidade do sistema de esgotamento sanitário, como enuncia a projeto original, recomendam-se as seguintes diretrizes para a nova etapa de obras:
- Diretriz de Novo Traçado: Implantação de uma nova linha paralelamente à área afetada, buscando um caminhamento que acompanhe suavemente as curvas de nível do relevo, evitando cavas profundas e minimizando os riscos geotécnicos.
- Metodologia Construtiva: Adoção rigorosa do sistema de avanço por etapas curtas (escavação, assentamento e reaterro imediato), impedindo que frentes de serviço permaneçam abertas e vulneráveis às águas pluviais.
- Proteção de Canteiro: Implementação obrigatória de dispositivos provisórios de drenagem superficial e vedação das extremidades da tubulação durante todo o período de execução.
- Executar ‘berço’ corrido: Executar com brita n.º 4; brita n.º 2; pedrisco e por último, uma camada de concreto com brita n.º 2 com areia grossa, na proporção 3:1 (cimento/areia). Desta forma toda água de mina é drenada sob este ‘berço’, mantendo a estabilidade da vala para sempre.

RELATÓRIO TÉCNICO DE AVALIAÇÃO E DIRETRIZES DE RETOMADA
1. Identificação e Contexto Institucional
- Empreendimento: Implantação de Emissário (DN 600 mm)
- Extensão Total de Projeto: 4.200 metros até a EEE do Distrito Industrial.
- Situação Atual: Perda total do trecho executado por assoreamento, colapso estrutural e instabilidade geotécnica. Portanto ainda está muito longe de se alcançar a metragem total de projeto, que é de 4.200 metros.
- Contexto Político-Administrativo: A Câmara Municipal já protocolou e encaminhou um Pedido Formal de Informações por iniciativa de parlamentar. O vereador propositor e o Poder Legislativo aguardam a resposta técnica fundamentada que o SAEP (Serviço de Água e Esgoto de Pirassununga) apresentará para esclarecer os fatos e apontar as soluções.
2. Histórico e Alterações do Traçado
O projeto conceitual e altimétrico elaborado originalmente pelo Eng.º Civil João Alex Baldovinotti visava o aproveitamento otimizado do perfil topográfico natural da bacia. No entanto, durante a fase de execução, o traçado original sofreu modificações substanciais na diretriz do caminhamento e nas cotas do greide. Essas alterações resultaram na abertura de valas a céu aberto com profundidades excessivas (atingindo até 7 metros) no **talvegue principal.
3. Diagnóstico do Colapso Executivo
- Abertura Excessiva de Frentes de Serviço: A manutenção de longos trechos de escavação profunda expostos no fundo de vale transformou a vala em um canal receptor de enxurradas pluviais das áreas agrícolas e urbanas superiores.
- Saturação e Perda do Leito de Assentamento: A ausência de barreiras e contenções provisórias permitiu a entrada de grande volume de lama na vala e no interior dos tubos de 600 mm. A saturação do solo desestabilizou o berço de brita/areia e provocou o solapamento dos taludes, resultando no desenterramento, desalinhamento e destruição da tubulação.
4. Diretrizes Técnicas para a Resposta e Retomada da Obra

Diante da inviabilidade técnica e financeira de recuperar ou desobstruir a linha colapsada sob o solo instável e revolvido, recomendam-se as seguintes diretrizes técnicas para fundamentar a resposta ao Legislativo e orientar a reimplantação:
- Implantação de Nova Linha Paralela: Construção de uma nova tubulação em traçado inédito, abandonando a calha comprometida para garantir a estabilidade do novo berço.
- Redefinição do Traçado e Greide: Priorização de uma nova diretriz que acompanhe suavemente as curvas de nível, mantendo profundidades escavadas predominantemente entre 2,0 m e 3,5 m. A escolha por um caminhamento mais suave é recomendada, ainda que resulte em uma extensão total superior aos 4.200 m originais, pois reduz custos geotécnicos e elimina o risco de escavações profundas em fundo de vale.
- Metodologia “Escavou, Assentou, Aterrou”: Adoção rigorosa de avanço por trechos curtos e fechamento imediato das valas ao final da jornada de trabalho.
- Sistemas de Proteção Provisória: Obrigatoriedade de *leigos, diques de desvio e tampões operacionais nas extremidades das tubulações durante todo o período construtivo.
*Contextualização da palavra “leigos”.
- Significado Prático: Trata-se de uma pequena barreira física ou amontoado de terra/material compactado construído ao longo da crista (borda) da vala ou no terreno acima dela.
- Função no Canteiro: Serve para desviar o fluxo da enxurrada de chuva, impedindo que a água que corre pela superfície do terreno caia direto para dentro da escavação.
- Na Frase: Quando o texto diz “Obrigatoriedade de leigos, diques de desvio…”, ele está exigindo a criação dessas barreiras de proteção na borda das valas para que a enxurrada das lavouras ou ruas vizinhas não invada a escavação durante a execução.
Em termos formais de projeto, o termo equivalente seria “leira de proteção”, “dique de contorno” ou “canaleta de desvio provisória”.
Conceito Técnico e Prático da palavre **TALVERGUE
- Definição Topográfica: É o local de maior depressão no relevo para onde toda a água de chuva das encostas vizinhas naturalmente converge e escoa. É, por excelência, o canal natural de drenagem da bacia hidrográfica.
- Relação com as Curvas de Nível: Nas cartas topográficas, as curvas de nível costumam formar um “V” ou um “U” apontando para a cota mais alta. A linha que passa exatamente pelo vértice (no ponto mais fundo) de todas essas curvas é o talvegue.
- Relação com o Escoamento por Gravidade: Como é o ponto de menor cota ao longo do caminhamento, a água e os efluentes correm por ele por gravidade de forma natural.
Por que ele é tão crítico em obras de escavação?
Escavar uma vala exatamente sobre a linha do talvegue (fundo de vale) significa escavar no ponto de maior concentração de enxurrada de toda a bacia. Se essa vala for mantida aberta sem proteção (os chamados leigos/leiras) ou sem desvio de fluxo, toda a água que desce pelas curvas de nível laterais vai desaguar direto para dentro da escavação, gerando o assoreamento e o colapso do berço, como aconteceu nesse trecho da obra.
Pirassununga, agosto de 2026.
p/ Cincinato


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