A ironia de Cincinato à resposta do SAEP ao vereador Carlinhos de Deus

Crônica – Uma leitura ácida e bem-humorada sobre as justificativas oficiais do Serviço de Água e Esgoto de Pirassununga a respeito das obras paralisadas do emissário de esgoto no Jardim Millenium II.
A LENDA DA ESCAVADEIRA SOLITÁRIA E O EMISSÁRIO FARAÔNICO
P/ Cincinato
Há coisas em Pirassununga que desafiam não apenas as leis da física e da hidráulica, mas a própria ciência da lógica.
Lendo recentemente as doutas e compenetradas explicações do nosso Serviço de Água e Esgoto — o lendário SAEP —, fui acometido por um sentimento misto de reverência e espanto. Descobri, através de papéis oficiais, que a obra do emissário de esgoto que deveria ligar a Vila Industrial ao Engenho Batistela não é uma simples intervenção urbana. Não, meus caros! Trata-se de um monumento à paciência humana. Uma solução “concebida em 2008 – projeto básico” que, como as grandes pirâmides do Egito ou a Muralha da China, atravessa dinastias, prefeitos, superintendentes e gerações sem a menor pressa de chegar ao fim.
Mas o que verdadeiramente me comoveu na resposta da autarquia foi a revelação de seu maior drama operacional: o mito da Escavadeira Solitária.
Descobrimos que a infraestrutura de uma cidade inteira repousa sobre as esteiras de um único e heroico equipamento. Uma máquina mística, quase divina, disputada em ritmo de romaria. De um lado, os moradores do Jardim Millenium contemplam mil tubos de concreto enterrados a sete metros de profundidade — hoje convertidos em fósseis arqueológicos de quase R$ 1 milhão — esperando a chegada da dita escavadeira. Do outro lado da cidade, em Santa Fé, a mesma escavadeira cava sofregamente, alheia ao destino dos tubos que repousam ao sol.
Dizem as más línguas que os operários da obra, ao chegar pela manhã no canteiro da Vila Industrial, não consultam o cronograma físico-financeiro — até porque este parece não existir. Eles olham para o horizonte, colocam a mão sobre a testa e perguntam ao vento: “A Máquina Sagrada virá hoje?”. Ao que o eco responde, solene: “Não… ela está em outras terras!”.
E enquanto a máquina não vem, a engenharia local reinventa seus próprios conceitos. Confessaram no papel que terão de desenterrar tubos já assentados para implantar o famoso “dreno paralelo”. Na física tradicional, o tubo que se enterra fica enterrado. No SAEP, o tubo é um ser itinerante: vai ao fundo, descobre que a água do solo não foi prevista no projeto executivo (se é que foi feito o projeto executivo…), e volta à superfície para “reposicionamento técnico”. Uma dança das cadeiras subterrânea paga com o dinheiro do contribuinte!
Tudo isso, claro, chancelado sem a incômoda presença da assinatura de um Engenheiro Civil na resposta oficial, responsável pelo projeto executivo. Afinal, para medir a profundidade do buraco de sete metros chama-se o agrimensor; para saber se o barranco vai desmoronar ou se a junta elástica de borracha vai ressecar no sol… ah, para isso chama-se a fé!
A tese oficial é que alugar outra máquina seria “antieconômico”. Bonita filosofia! Economiza-se o aluguel de uma PC enquanto se mantém um milhão de reais em tubos enterrados sem uso, gerando zero benefício sanitário à população. É a famosa economia da vela para gastar no velório.
Cincinato, em sua modesta ignorância, apenas observa. E sugere, com todo o respeito: já que o projeto básico é de 2008 e caminha a passos de tartaruga, que se declare o canteiro do Jardim Millenium como Patrimônio Histórico e Arqueológico Municipal. Assim, enquanto o esgoto não passa, ao menos podemos cobrar ingresso dos turistas para ver a lendária vala da Escavadeira PC Solitária.
Pirassununga, setembro de 2026
P/ Cincinato


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