Pirassununga. Crônica. A saga da escavadeira sagrada e a matemática quântica do SAEP

PRÓLOGO – Esta Crônica é contundente, baseada estritamente nos números do próprio SAEP e na lei de responsabilidade, com tom satírico, dividida de forma muito clara entre a Parte I (PI nº 171/2026) e a Parte II (PI nº 200/2026).
P/ Cincinato
A SAGA DA ESCAVADEIRA SAGRADA E A MATEMÁTICA QUÂNTICA DO SAEP
Crônica – Uma leitura ácida e bem-humorada sobre as justificativas oficiais do Serviço de Água e Esgoto de Pirassununga (SAEP) enviadas à Câmara Municipal em resposta aos Pedidos de Informação do vereador Carlinhos de Deus a respeito das obras paralisadas do emissário de esgoto do Jardim Millenium II.
PARTE I – A Lenda da Escavadeira Solitária
(Sobre a resposta oficial da Autarquia ao Pedido de Informação nº 171/2026)
Há coisas em Pirassununga que desafiam não apenas as leis da física e da hidráulica, mas a própria ciência da lógica.
Lendo as doutas e compenetradas explicações do nosso Serviço de Água e Esgoto — o lendário SAEP —, fui acometido por um sentimento misto de reverência e espanto. Descobri, através de papéis oficiais, que a obra do emissário de esgoto que deveria ligar a Vila Industrial ao Engenho Batistela não é uma simples intervenção urbana. Tratava-se de um monumento à paciência humana. Uma solução “concebida em 2008 – projeto básico” que, como as grandes pirâmides do Egito, atravessa dinastias, prefeitos e superintendentes sem a menor pressa de chegar ao fim.
Mas o que verdadeiramente me comoveu na resposta da autarquia ao Pedido de Informação nº 171/2026 foi a revelação de seu drama operacional: o mito da Escavadeira Solitária. Descobrimos que a infraestrutura de uma cidade inteira repousava sobre as esteiras de um único e heroico equipamento. Uma máquina mística, disputada em ritmo de romaria: de um lado, os moradores do Jardim Millenium contemplavam mil tubos de concreto — convertidos em fósseis de R$ 1 milhão — esperando a chegada da dita PC; do outro lado da cidade, em Santa Fé, a mesma máquina cavava sofregamente.
E enquanto a máquina não vinha, a engenharia local reinventava seus próprios conceitos. Confessaram no papel que teriam de desenterrar tubos já assentados para implantar um “dreno paralelo”. Na física tradicional, o tubo que se enterra fica enterrado. No SAEP, o tubo é itinerante: vai ao fundo, descobre que a água do solo não foi prevista no projeto, e volta à superfície para “reposicionamento técnico”. Uma dança das cadeiras subterrânea, custeada pelo contribuinte e chancelada sem a incômoda presença da assinatura de um Engenheiro Civil na resposta oficial.
A tese era de que alugar outra máquina seria “antieconômico”. Bonita filosofia! Economiza-se o aluguel de uma escavadeira enquanto se mantém um milhão de reais em tubos enterrados sem uso.
PARTE II – O Milagre dos Tubos Multiplicados e a Matemática Quântica
(Sobre a resposta oficial da Autarquia ao Pedido de Informação nº 200/2026)
Pensávamos que o folclore do emissário havia terminado na escavadeira. Mero engano! Diante do Pedido de Informação nº 200/2026, o SAEP resolveu brindar a Câmara Municipal com uma aula inédita de matemática quântica e contabilidade criativa.
Em novos papéis timbrados, ornados com elegantes capturas de tela do Google Earth, a autarquia confessou sem ruborizar: dos R$ 2.492.078,81 previstos para o total da obra, já foram gastos R$ 2.013.835,44!
Qualquer cidadão pagador de impostos imaginaria que, tendo pago 80,8% da conta, a obra estaria na fase dos acabamentos. Doce ilusão! Ao compulsar as planilhas do processo, descobre-se que o grosso do dinheiro foi consumido na compra antecipada de tubos que continuam a estocar sol e poeira, enquanto a execução física dos serviços operacionais em campo mal saiu do zero (meros R$ 69 mil executados). E para concluir o trecho que falta? O SAEP pede generosos 24 meses de “trabalho efetivo”. Dois anos! Vinte e quatro meses para assentarmos uma linha de esgoto cujo projeto começou a ser rabiscado quando o mundo nem sonhava com o WhatsApp!
Como se não bastasse a esticada no cronograma, a autarquia justificou o desvio do traçado original alegando que, em 2026, descobriram “a não anuência de um proprietário” e “vegetação a ser preservada”. Levaram anos para olhar a topografia do terreno e perceber que havia cercas e árvores no caminho!
Mas o ápice da genialidade esteve na garantia de que os tubos assentados no traçado errado não foram perdidos, pois “permanecem disponíveis e integrados para futuros empreendimento da zona leste”. É sublime! No SAEP, o erro de planejamento não é prejuízo ao erário; é uma “obra preventivamente antecipada para o futuro”. Se você constrói uma ponte no seco porque errou o curso do rio, na visão da autarquia você não errou: apenas criou um monumento para quando o rio resolver mudar de lugar!
Lendo a Crônica de Cincinato há algumas semanas, sobre este mesmo assunto, ele concluiu: “se a matemática do SAEP vigorar no restaurante, você paga 80% do prato principal, recebe três grãos de arroz na mesa, e o garçom promete entregar o bife em até 24 meses — isso se a escavadeira não estiver ocupada na cozinha do vizinho”.
Pirassununga, setembro de 2026.
P/ Cincinato
Só para lembrar aos meus leitores, onde e como fui buscar meu pseudônimo “Cincinato”:
O Mito do Ditador Fazendeiro
Em 458 a.C., Roma enfrentava uma grave crise militar: o exército romano e um dos cônsules haviam sido cercados pela tribo dos équos nos montes Algidus. Diante da ameaça iminente de destruição, o Senado Romano decidiu recorrer a uma medida de emergência prevista na constituição republicana: a nomeação de um Ditador com poderes absolutos pelo período de 6 meses.
A delegação do Senado foi enviada para encontrar Cincinato, que havia se retirado da vida pública e vivia de forma simples trabalhando em sua pequena propriedade rural do outro lado do rio Tibre.
Os emissários o encontraram com as mãos no arado, cultivando a terra. Ao receber a notícia da nomeação:
- Assumiu o Poder Supremo: Vestiu a toga cidadã, marchou para Roma, organizou o alistamento geral e assumiu o comando do exército.
- Derrotou o Inimigo: Em uma campanha militar relâmpago que durou apenas 16 dias, cercou os équos, libertou as forças romanas e venceu a batalha.
- Renunciou ao Poder: Em vez de utilizar a ditadura para se perpetuar no comando ou acumular riquezas pelos 5 meses e meio restantes do mandato, Cincinato entregou o cargo de volta ao Senado no dia seguinte à vitória e retornou imediatamente para sua fazenda para continuar arando a terra.
O Significado Histórico e Cultural
Na tradição romana e na filosofia política ocidental, Cincinato tornou-se o arquétipo do “Cidadão-Soldado”: aquele que assume o serviço público por estrito dever moral e amor à pátria, recusando a tirania, a vaidade do cargo e a corrupção.
Anos mais tarde, esse ideal inspirou líderes da era moderna — como George Washington, que após a Guerra de Independência dos Estados Unidos renunciou ao comando militar e voltou para sua fazenda em Mount Vernon, sendo por isso chamado de “O Cincinato Americano” (origem do nome da cidade de Cincinnati, em Ohio).
É dessa figura histórica que nasce a essência da persona literária: o observador crítico, firme nos princípios éticos e imune às vaidades do poder político.


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